A cada ano a Igreja Católica celebra a Quaresma, tempo privilegiado de Oração, Penitência e Conversão. Este período é também chamado de “tempo forte”, pois implica um empenho maior no exercício dos valores apregoados pelo cristianismo, chamando a aproveitar de tal ciclo para refletir sobre a Paixão e Morte de seu mestre Jesus Cristo. Depois, mais preparados, poderão os cristãos gozar melhor das alegrias da Ressurreição de seu Senhor, pois “Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia é a nossa fé” (I Coríntios 15,14). 

Uma verdadeira espiritualidade cristã deve ser transbordante de alegria pascal, combatendo o risco cada vez mais crescente na sociedade pós moderna de viver a quaresma de forma vazia. Este tempo não é para cumprir “meros preceitinhos” aliados à vanglória humana. Não é época para aliviar a consciência com atitudes para “parecer bonzinho diante de Deus”. É oportunidade para um contato estreito com a realidade por meio da caridade: ver a Deus no rosto do próximo, especialmente quem mais necessita! É uma etapa para lembrar que os preceitos do Evangelho não são teoria, recordando os ensinamentos dos apóstolos: “Se alguém disser ‘Amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também ao seu irmão” (Iª Jo 4, 20- 21).  

Questionável e à beira do execrável, tem sido ver especialmente nas Redes Sociais, que há pessoas e até grupos inteiros, formando associações e centros, promotores de uma suposta apresentação de verdades de fé com aparência de “bons católicos”. A grosso modo passam a imagem de “meninos de boa doutrina”. Contudo, no fundo assemelham-se mais com os protestantes a quem tanto criticam. Causam cisão por incitarem ódio aos Pastores da Igreja e à sua legítima Conferência Episcopal. Tal como os seguidores dos irmãos separados, parecem não entender o apóstolo São Tiago. “Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras” (Tiago 2,18). E para piorar, agregam não poucos que aplaudem e almejam viver a Quaresma de uma maneira espiritualizante e desconexa, com práticas dicotômicas entre corpo e alma, caindo não raro, em devocionismos e até em superstições. Isso sem falar nos anacronismos próprios de quem não vê as “alegrias e esperanças do mundo contemporâneo” (Gaudium et Spes, n 1). Por fim, acabam sendo capazes de criar um mundo paralelo. Aí fica fácil jejuar e frequentar o templo, açoitar-se com cilícios, aplacar com penitências a ira de um “deus” vingador criado para si, mas que apenas alivia a consciência de quem não consegue dar de seu tempo e de suas capacidades para quem realmente precisa. Como é difícil deixar de lado regrinhas empacotadas, gostinhos pessoais e caprichos, pois é mais fácil prender-se em horários fixados nos próprios planos, confiando em uma “divina providência” minúscula e autorreferencial, encerrada em um tubo de ensaio entre os próprios dedos. Por isso, o texto-base da Campanha da Fraternidade de 2022 convida a ver a necessidade dos que vivem ao inesperado, em meio às ambiguidades da vida e necessitados da cultura do encontro (cf. Manual n.49 -53).  

Como católicos estamos com os Bispos e com o Papa Francisco. Este que na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, alerta para o perigo de uma espiritualidade desencarnada, sem corpo, sem físico, sem carne. Ao falar dos novos gnósticos, ele afirma: “Concebem uma mente sem encarnação, incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos outros, engessada em uma enciclopédia de abstrações. Ao desencarnar o mistério, em última análise preferem ‘um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo” (Gaudete et exsultate, 37). 

O católico coerente, verdadeiro e obediente, procurará conhecer a Campanha da Fraternidade como oportunidade de “suscitar atitudes concretas de vivência da caminhada quaresmal rumo à Páscoa. Esse chamado à conversão é alimentado nas celebrações litúrgicas, com auxílio especial de um repertório adequado” (cf. capa do Manual CF 2022). Viver a Campanha da Fraternidade no privilegiado tempo quaresmal permite evitar a dicotomia entre fé e vida, ajudando a não agir como um fariseu hipócrita. Quanto a isso, “Jesus previne ainda com esta parábola, a respeito de alguns que se vangloriavam como se fossem justos e desprezavam os outros:Subiram dois homens ao templo para orar. Um era fariseu; o outro, publicano. O fariseu, em pé, orava no seu interior desta forma: Graças te dou, ó Deus, que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como o publicano que está ali. Jejuo duas vezes na semana e pago o dízimo de todos os meus lucros. O publicano, porém, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador! Digo-vos: este voltou para casa justificado, e não o outro. Pois todo o que se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado’” (Lc 18, 9-14). 

Vale a pena dedicar esta Quaresma para educar-se a fazer a vontade de Deus. O tema da Campanha da Fraternidade 2022 versa sobre Fraternidade e Educação. Urge ouvir e cumprir as moções do Divino Espírito Santo, que convida à oração, à penitência e à conversão (sem prescindir da ação). E que assim se faça na vida concreta de cada pessoa de boa vontade capaz de acolher o que o Cristo Esposo diz por meio de sua Esposa, a Igreja: Quaresma e Fraternidade: campanha privilegiada!  “Fala com sabedoria, ensina com amor” (Provérbios 31,26). 

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