“Comunidade de comunidades: uma nova paróquia” foi o tema refletido na manhã do dia 22 de novembro, durante a assembleia do Regional Leste 1 da CNBB. O evento, realizado no Centro de Estudos do Sumaré, no Rio Comprido, reuniu bispos, sacerdotes e agentes de pastorais.

A mesa de trabalhos foi aberta pela presidência do Regional: Dom Orani, Dom Luciano Bergamin, bispo de Nova Iguaçu e Dom José Francisco Rezende Dias, arcebispo de Niterói, respectivamente, presidente,  vice-presidente e secretário do Regional. Após dar as boas-vindas aos participantes, Dom Orani explicou os temas que seriam debatidos e a metodologia de trabalho. Em seguida, apresentou Dom João Bosco Barbosa de Souza, bispo de União da Vitoria (PR) e membro da comissão da CNBB responsável pela elaboração do documento da CNBB ”Comunidade de comunidades: uma nova paroquia”.

Dom João iniciou sua palestra contextualizando a elaboração do documento de estudos. Ele lembrou os 50 anos do Concílio Vaticano II e afirmou que a Igreja pós-conciliar vive hoje um momento extraordinário de sua história, ao contrário do que muitos críticos e pessimistas propagam.

“Se fala muito em crise da Igreja, especialmente a numérica, afirmando-se que cristãos estão diminuindo. Isso deixa a gente muitas vezes numa atitude defensiva diante do mundo. Mas na verdade, não é a Igreja que está em crise. É o mundo! E a crise do mundo atinge a Igreja, pois ela esta dentro do mundo”, explicou.

“Mas o Concílio Vaticano II nos preparou justamente para esta grande crise da humanidade, por isso podemos dizer que vivemos um grande momento em nossa história. Sim, as mudanças de valores na sociedade atingem a Igreja de uma forma muito forte. Mas, embora de fato numericamente tenhamos diminuído, sem dúvida nenhuma também é possível afirmar que a consciência dos cristãos que participam da vida eclesial é muito maior que em outros tempos. A presença da Palavra de Deus na vida dos cristãos é muito mais efetiva hoje que há 50 anos. Então, o que diminuiu em termos numéricos aumentou sensivelmente em consciência e maturidade cristã”, frisou Dom João Bosco.

 Uma nova paróquia

Diante disso, é preciso repensar a dinâmica da vida eclesial, para que ela seja de fato a extensão a ação do Bom Pastor, que é Jesus. É necessário que haja uma profunda conversão pastoral, para enfrentar os desafios nos âmbitos da pessoa, da comunidade e da sociedade.
“Com relação à pessoa, é preciso enfrentar o intimismo religioso e as mudanças na família. No âmbito da comunidade, é necessário se pensar na nova territorialidade, na realidade urbana, no relativismo e fundamentalismo. E no da sociedade, temos que enfrentar ideologias que colocam o mercado acima da experiência religiosa, bem como o pluralismo cultural, que traz desorientação e estimula a competição”, disse o bispo.

E o que é uma nova paróquia? “Em primeiro lugar, a paróquia é, e foi reconhecida assim pelo Magistério da Igreja, um ponto de encontro da maioria dos fiéis. É um local, uma estrutura importante. A Igreja precisa da paróquia, e deve renova-la. Agora, em que sentido? Quais são os pontos fundamentais dessa renovação paroquial? É isso que nós precisamos descobrir juntos. E o Brasil tem feito esse grande esforço para chegar numa nova configuração paroquial. Mas podemos resumir numa frase a nova paróquia: uma comunidade que seja de fato a presença de Jesus Cristo no mundo.”

E isso só será possível, argumentou Dom João, se dentro desse contexto de renovação seja identificado aquilo que faz com que a paróquia seja voltada para si própria, centrada na figura do padre, constituindo-se assim em uma paróquia envelhecida. “Na velha paróquia se ficava a espera do povo. A nova paróquia sai à rua e vai atrás daquelas pessoas que precisam ouvir as palavras do Evangelho. A paróquia renovada vai ao encontro dos afastados e marginalizados. Na nova paróquia, os conselhos pastoral e financeiro efetivamente funcionam com a presença dos leigos, que não são meramente representantes do padre, mas exercem um protagonismo importante na vida eclesial”, frisou.

 Francisco e a nova paróquia

Após a eleição do Papa Francisco, a Igreja ganhou ainda mais elementos para definir a nova paróquia. Segundo Dom Bosco, o Papa a cada dia questiona a prática pastoral da Igreja e a desafia a romper os seus muros e se fazer presença efetiva de Cristo no mundo.

O bispo apresentou, em cinco pontos, o que Francisco pensa quando fala da Igreja:

1. Missionária: “Está muito claro que o Papa Francisco não quer uma Igreja que fica apenas cuidando de si mesma. Quer uma Igreja que saia do isolamento, levando o Evangelho para o mundo. Igreja próxima da vida das pessoas, falando uma linguagem compreensível, sobretudo aos mais simples. A Igreja não está no centro. Quem está no centro é Jesus Cristo, que a envia para a periferia. Periferia não só geográfica, mas existencial”.

2. Que vai ao encontro dos mais necessitados: “Diversas vezes o Papa se referiu à Igreja como mãe, que não exclui ninguém. E fazia com os braços o gesto da mãe e embalar uma criança. Uma mãe não exclui, não maltrata, não fere ninguém, mas ama incondicionalmente. E fica para nós a pergunta: a nossa Igreja é de fato mãe, para os necessitados?”

3. Que tenha coragem de ‘ir contra a corrente: “A expressão foi recorrente, quase sempre dirigida aos jovens, descrevendo os traços da cultura do provisório e do descartável, do comodismo, da exclusão e da morte. Contrariar essa corrente é ser Igreja profética”.

4. Que testemunhe Cristo: “E esse testemunho deve ser alegre, segundo o Papa Francisco. No encontro reservado com os bispos do Brasil, Francisco fez uma longa consideração sobre um certo desânimo que paira sobre as pessoas, que ele comparou àquilo que sentiam os discípulos de Emaús, ao se afastar de Jerusalém. Estavam decepcionados com o fracasso da cruz. ‘É grande hoje a sensação de abandono e solidão. Faz falta uma Igreja que não tenha medo de entrar na noite dos homens’, disse o Papa. ‘Precisamos de uma Igreja capaz de lhes fazer companhia’, frisou o Pontífice. Partindo dessa constatação, o Papa sugere que se dê prioridade à formação ‘de qualidade’, a todos, a começar pelos bispos, sacerdotes, religiosos e leigos”.

5. Que mostre com a vida que vale a pena gastar-se por grandes ideais: “Neste último ponto o Papa Francisco se mostrou imbatível: suas palavras foram, de ponta a ponta, confirmadas com sua vida e coerência. A simplicidade, a alegria, a coragem, o bom humor o acompanharam em todos os encontros. Encontros de alma aberta, entrevistas de câmera aberta, conversa direta com jornalistas, coração aberto sem receio de nenhum tema, mesmo os mais polêmicos, mostraram que o Papa quer uma Igreja que não tem nada a esconder nem disfarçar”.

Por André Gripp

LITURGIA DIÁRIA

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