Campanha da Fraternidade

A Rede Milícia, que chega à nossa diocese na programação noturna da Rádio Educadora, entrevistou Dom João Bosco sobre o tema da Campanha da Fraternidade/2014. De acordo com a Organização das Nações Unidas – ONU, no Brasil, o tráfico de pessoas faz cerca de 2,5 milhões de vítimas por ano, sobretudo mulheres e crianças. Saiba mais sobre a Campanha, acompanhando a entrevista que foi ao ar na noite de terça feira, dia 18 de fevereiro.
Rede Milícia – A Campanha da Fraternidade de 2014 terá como tema “Fraternidade e Tráfico Humano”. Por que a CNBB escolheu este tema para a CF?Dom João Bosco – Já são 50 anos desde o início da Campanha da Fraternidade. E, a cada ano, a Igreja nos propõe um tema ligado à Vida, à dignidade humana, à Justiça, à Caridade, às questões sociais. A intenção é que os cristãos católicos se unam a todos os que têm boa vontade e querem um mundo melhor, e busquem, assim, juntos, os caminhos para superar os grandes problemas humanos. O tema é escolhido com vários anos de antecedência. Depois é feito Um estudo sobre o assunto para aprofundar o conteúdo, e também é preparado o material de reflexão, as celebrações, o Hino da Campanha tudo tem que ser distribuído para mais de 10 mil paróquias e,  mais de 100 mil comunidades. Por isso, cada tema é escolhido com muito cuidado.

O tema deste ano, o tráfico humano vem preocupando muito a Igreja como também aos governos e a sociedade no mundo inteiro. Trata-se de um crime, escravizar alguém, prometer emprego e depois manter as pessoas presas, seja para o trabalho, seja para o mercado do sexo, ou mesmo para a extração de órgãos para transplante. É inacreditável que isso aconteça. Mas é um fato. Um crime Difícil de ser descoberto, acompanhado e punido. Um crime que rende muito dinheiro aos criminosos. E em geral é cometido contra pessoas pobres que acreditam na ilusão que lhes é oferecida. Só mesmo uma grande campanha, um esforço conscientizar a todos, pode ter efeito para combater esse crime.

campanhadafraternidade2014_p_pkRede Milícia – Quando falamos de tráfico humano, parece coisa de novela, algo distante de nós. Qual é a realidade deste tipo de prática no Brasil e no mundo.

Dom João Bosco – De fato, parece coisa de novela. Aliás, quando aquela novela que falava do tráfico humano foi feita, a Igreja já estava levantando os dados para a Campanha da fraternidade. A novela alertou muita gente, mas aquele era só um aspecto: o tráfico de pessoas para o sexo. E há outros aspectos que nem se imagina: tráfico de crianças para adoção, de trabalhadores para agricultura, construção civil e até o tráfico de órgãos humanos. Dá pra imaginar? E quanta gente desaparecida, sobretudo crianças…  Os traficantes de pessoas estão aí por toda parte. E formam uma poderosa rede espelhada pelo mundo inteiro, da mesma forma que o tráfico de drogas, de armas, e outros crimes. E fato real, e não está longe de nós, não senhores.  Embora seja difícil de fazer estatísticas, há indícios de que são milhares os casos. O dinheiro oferecido é muito atraente, e isso acaba convencendo aqueles que se deixam iludir. Quando chegam ao tal emprego, aos cursos de modelos, e outras promesss, as pessoas se vêm trancadas e ameaçadas, forçadas a trabalhar como escravos, ou a se prostituir,  não conseguem mais comunicar-se. Só por milagre ou denúncia conseguem escapar. Alertar, conscientizar, prevenir e denunciar esse crime que nos envergonha, em pleno século 21.  É isso que pretende a Campanha da Fraternidade.

Rede Milícia – A Igreja do Brasil realiza trabalhos de combate a este tipo de crime?

Dom João Bosco – Onde a dignidade humana é ferida, aí deve estar presente a Igreja. Entre as pastorais sociais da Igreja, existe aquela que é chamada de Pastoral da Mobilidade Humana, que inclui o turismo, o atendimento aos migrantes, nômades. Mas nesta área específica, existe um Grupo de Trabalho para Enfrentamento da questão do Tráfico Humana formado há três anos,. Seu principal papel é acompanhar e incentivar políticas públicas com sugestões e estudos, e também firmar parcerias com outros grupos que se empenham em coibir o tráfico. A Campanha da Fraternidade pretende mobilizar os cristãos para ações concretas de vigilância e conscientização. O combate ao crime é atribuição do Estado, claro. Mas o esclarecimento das comunidades, a atenção, e mesmo a denúncia de fatos comprovados, isso cabe a todos. Independente da religião. É claro que para nós a dignidade humana tem um fundamento mais importante: cada ser humano é criado por Deus para ser livre. A vida não tem preço. E o próprio Jesus veio ao mundo dizendo “Eu vim para que todos tenham vida em abundância.”  O lema da Campanha da fraternidade deste ano é tirado da Carta aos Gálatas (primeiro versículo do 5 capítulo. ) São Paulo ali afirma: “é para a Liberdade que Cristo nos libertou. “ Se ele veio para isso, é justo que a Igreja se empenhe na luta contra todo  tipo de escravidão, até mesmo a escravidão das drogas, Esse tipo de tráfico está quase sempre junto com o tráfico humano.

Rede Milícia – Qual é o principal objetivo da Campanha da Fraternidade ao escolher esta temática?

Dom João Bosco – O objetivo já está expresso no nome da campanha: o objetivo é a fraternidade. Fraternidade entre todas as pessoas. Mas a fraternidade deve se dirigir especialmente aos que estão mais distantes dela: como insiste o Papa Francisco, nossa caridade deve ir buscar aqueles que estão nas periferias existenciais. Ninguém mais distante da fraternidade do que aquele que é tratado  como escravo. O tráfico humano é um claro exemplo de periferia existencial. E todos somos convidados a conhecer, a combater. Se as pessoas pensarem que esse problema não existe, ou que é alguma coisa distante de nós, certamente as estatísticas vão continuar crescendo. Também é preciso que os cristãos participem das ações que exigem do poder público medidas de proteção, e também reinserção das pessoas que foram vítimas de tráfico humano. Todos devem estar envolvidos com a Campanha, em todos os níveis. E se eu não posso estar na linha de frente, certamente posso estar rezando e apoiando aqueles que estão, em nosso nome, levando dignidade às pessoas atingidas e possíveis novas vítimas.

Mas o fato de a Campanha iniciar na Quaresma, tempo de conversão, indica que a raiz de toda a escravidão é o pecado e o afastamento de Deus. Por isso, o grande convite da Campanha da Fraternidade é que busquemos, todos, essa conversão de vida, que nos vai levar à Ressurreição. É isso que eu desejo, de coração a todos os ouvintes. Boa quaresma, e feliz Páscoa!

Fonte: Diocese de União da Vitória

LITURGIA DIÁRIA

Últimos Posts