
O tema deste ano, o tráfico humano vem preocupando muito a Igreja como também aos governos e a sociedade no mundo inteiro. Trata-se de um crime, escravizar alguém, prometer emprego e depois manter as pessoas presas, seja para o trabalho, seja para o mercado do sexo, ou mesmo para a extração de órgãos para transplante. É inacreditável que isso aconteça. Mas é um fato. Um crime Difícil de ser descoberto, acompanhado e punido. Um crime que rende muito dinheiro aos criminosos. E em geral é cometido contra pessoas pobres que acreditam na ilusão que lhes é oferecida. Só mesmo uma grande campanha, um esforço conscientizar a todos, pode ter efeito para combater esse crime.
Rede Milícia – Quando falamos de tráfico humano, parece coisa de novela, algo distante de nós. Qual é a realidade deste tipo de prática no Brasil e no mundo.
Dom João Bosco – De fato, parece coisa de novela. Aliás, quando aquela novela que falava do tráfico humano foi feita, a Igreja já estava levantando os dados para a Campanha da fraternidade. A novela alertou muita gente, mas aquele era só um aspecto: o tráfico de pessoas para o sexo. E há outros aspectos que nem se imagina: tráfico de crianças para adoção, de trabalhadores para agricultura, construção civil e até o tráfico de órgãos humanos. Dá pra imaginar? E quanta gente desaparecida, sobretudo crianças… Os traficantes de pessoas estão aí por toda parte. E formam uma poderosa rede espelhada pelo mundo inteiro, da mesma forma que o tráfico de drogas, de armas, e outros crimes. E fato real, e não está longe de nós, não senhores. Embora seja difícil de fazer estatísticas, há indícios de que são milhares os casos. O dinheiro oferecido é muito atraente, e isso acaba convencendo aqueles que se deixam iludir. Quando chegam ao tal emprego, aos cursos de modelos, e outras promesss, as pessoas se vêm trancadas e ameaçadas, forçadas a trabalhar como escravos, ou a se prostituir, não conseguem mais comunicar-se. Só por milagre ou denúncia conseguem escapar. Alertar, conscientizar, prevenir e denunciar esse crime que nos envergonha, em pleno século 21. É isso que pretende a Campanha da Fraternidade.
Rede Milícia – A Igreja do Brasil realiza trabalhos de combate a este tipo de crime?
Dom João Bosco – Onde a dignidade humana é ferida, aí deve estar presente a Igreja. Entre as pastorais sociais da Igreja, existe aquela que é chamada de Pastoral da Mobilidade Humana, que inclui o turismo, o atendimento aos migrantes, nômades. Mas nesta área específica, existe um Grupo de Trabalho para Enfrentamento da questão do Tráfico Humana formado há três anos,. Seu principal papel é acompanhar e incentivar políticas públicas com sugestões e estudos, e também firmar parcerias com outros grupos que se empenham em coibir o tráfico. A Campanha da Fraternidade pretende mobilizar os cristãos para ações concretas de vigilância e conscientização. O combate ao crime é atribuição do Estado, claro. Mas o esclarecimento das comunidades, a atenção, e mesmo a denúncia de fatos comprovados, isso cabe a todos. Independente da religião. É claro que para nós a dignidade humana tem um fundamento mais importante: cada ser humano é criado por Deus para ser livre. A vida não tem preço. E o próprio Jesus veio ao mundo dizendo “Eu vim para que todos tenham vida em abundância.” O lema da Campanha da fraternidade deste ano é tirado da Carta aos Gálatas (primeiro versículo do 5 capítulo. ) São Paulo ali afirma: “é para a Liberdade que Cristo nos libertou. “ Se ele veio para isso, é justo que a Igreja se empenhe na luta contra todo tipo de escravidão, até mesmo a escravidão das drogas, Esse tipo de tráfico está quase sempre junto com o tráfico humano.
Rede Milícia – Qual é o principal objetivo da Campanha da Fraternidade ao escolher esta temática?
Dom João Bosco – O objetivo já está expresso no nome da campanha: o objetivo é a fraternidade. Fraternidade entre todas as pessoas. Mas a fraternidade deve se dirigir especialmente aos que estão mais distantes dela: como insiste o Papa Francisco, nossa caridade deve ir buscar aqueles que estão nas periferias existenciais. Ninguém mais distante da fraternidade do que aquele que é tratado como escravo. O tráfico humano é um claro exemplo de periferia existencial. E todos somos convidados a conhecer, a combater. Se as pessoas pensarem que esse problema não existe, ou que é alguma coisa distante de nós, certamente as estatísticas vão continuar crescendo. Também é preciso que os cristãos participem das ações que exigem do poder público medidas de proteção, e também reinserção das pessoas que foram vítimas de tráfico humano. Todos devem estar envolvidos com a Campanha, em todos os níveis. E se eu não posso estar na linha de frente, certamente posso estar rezando e apoiando aqueles que estão, em nosso nome, levando dignidade às pessoas atingidas e possíveis novas vítimas.
Mas o fato de a Campanha iniciar na Quaresma, tempo de conversão, indica que a raiz de toda a escravidão é o pecado e o afastamento de Deus. Por isso, o grande convite da Campanha da Fraternidade é que busquemos, todos, essa conversão de vida, que nos vai levar à Ressurreição. É isso que eu desejo, de coração a todos os ouvintes. Boa quaresma, e feliz Páscoa!
Fonte: Diocese de União da Vitória
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