not_2849_3667_f095_450

Quatro peregrinos da Missão Eucarística Voz dos Pobres, de Umuarama, caminharam de Umuarama a Aparecida-SP, em 23 dias. Entre os missionários, um ex-morador de rua.

Os peregrinos são Edson Leonardo Gregório Evangelista, de 20 anos; César da Silva Rodrigues, 35 anos e pai de 5 filhos; Lourival Marcolino dos Santos, 48 anos e ex-morador de rua e Alexsandro José Joaquim, 37 anos, pai de 3 filhos. A ideia de percorrer o caminho a pé foi do César, que é coordenador da Missão Eucarística Voz dos Pobres em Umuarama. Prontamente os outros missionários se interessaram pela ideia e encararam o desafio. Eles andaram cerca de 1.200km em 23 dias, cerca de 15h por dia caminhando, só parando para almoçar quando alguém os acolhia, e para dormir nas barracas que levaram nas costas.

Caminhando e rezando
Durante os 1.200 km e 23 dias de peregrinação, eles rezavam e faziam algumas novenas, inclusive a de Nossa Senhora de Guadalupe, a qual são devotos. Chegaram na Basílica de Aparecida exatamente no dia de Nossa Senhora de Guadalupe, onde fizeram o encerramento da novena com a celebração da Santa Missa. Alexsandro fala sobre a sensação: “foi emocionante avistar a Basílica, largar a mochila e sair correndo para a Igreja”.

A exemplo de São Francisco de Assis
Os peregrinos só levaram nas mochilas água, uma troca de roupa e barracas. Paravam nas paróquias das cidades do caminho para pedirem ajuda, e em muitos lugares, Irmã Ana, que é coordenadora da CRB (conferência dos religiosos do Brasil – Núcleo de Umuarama) ia fazendo o contato para que os padres os acolhessem, já que não levaram consigo nenhuma carta de recomendação.
Muita gente os acolheu com carinho e ajudaram com doações de roupas, calçados, comida e bebida. César conta que em uma cidade de São Paulo, foram acolhidos por um padre que os recebeu de coração aberto, “ele tinha um amor que eu nunca tinha visto”, conta o missionário. O padre passou pomada nos pés deles, rezaram juntos e ungiu o peito deles com a unção dos enfermos. Um diácono que o acompanhava, lavou as roupas deles e fez comida.“Essa foi a parte que mais me gravou”, lembra emocionado.
Também foram negados quando pediam ajuda. “Fomos sem carta de recomendação, então algumas pessoas não nos acolhiam mesmo”, contam eles. Os quatro peregrinos tiveram a imagem de São Francisco como exemplo, já que ele também sofreu muito com falta de amor e caridade das pessoas, e mesmo assim continuou firme, que foi o que eles fizeram. “Todos os dias eu pensei em São Francisco de Assis pelos comportamentos dele nas escritas, pelas cidades em que ele passava caminhando e foi acolhido ou não, e pelo amor para com os pobres”, diz César.

Amor nas calçadas
Os moradores de rua foram lembrados por eles. Não tiveram a peregrinação como um sofrimento, mas como uma experiência. César reflete na situação dos mendigos. “Nós fomos peregrinos missionários, mas e os pobres que estão nas ruas? Missionários recebem acolhimento, eles não. Quem está na rua está realmente sofrendo, e não tendo uma experiênciaNós saímos sabendo que tínhamos um destino e que voltaríamos para casa, mas eles não têm uma esperança.” Alexsandro, que como os outros missionários da Missão Voz dos Pobres, trabalha com moradores de rua, e contou que a peregrinação foi muito válida pelo trabalho. “Para nós que trabalhamos com moradores de rua foi um grande aprendizado, porque eles reclamam muito da falta de acolhimento das pessoas, e nós passamos por tudo isso sentindo na pele. Isso acaba nos dando mais vontade ainda de ajuda-los.”
Lourival é ex-morador de rua. Ele era conhecido como “fedido” e “leproso” como ele conta emocionado. Ele viveu por 8 anos nas ruas de Umuarama, e há 6 meses está acolhido na Casa de Oração. Quando chegou em Umuarama, ficou conhecido pelas 300 feridas que tinha pelo corpo. “Eu andava sangrando”, diz. Sr. Lourival, como todas as pessoas em situação de rua, passou por muitas dificuldades e preconceitos. Algumas situações ficaram marcadas para ele. “Já passei em porta de restaurantes que os proprietários pediam para eu passar do outro lado da calçada porque os clientes tinham nojo de mim por conta das minhas feridas. Não queriam comer com o leproso passando”,narrou. Ele prometeu a Nossa Senhora que se Deus a curasse e o tirasse da rua, ele iria a pé para Aparecida. “Fiz essa promessa e Deus me curou”.

Por que peregrinar?
Dos quatro peregrinos, cada um teve um propósito para ter ido a Aparecida a pé. Edson Leonardo, o mais novo da turma, teve vontade de ir por um gesto de caridade. Ele conta: “Eu quis ir para conhecer a mim mesmo, e pela cura da mãe de um amigo que estava com câncer e precisaria fazer quimioterapia, o que deixou meu amigo muito triste. Coloquei a vida dela como uma das principais intenções e ela foi curada pela intercessão de Nossa Senhora”.
Alexsandro já tinha uma viagem prevista para Aparecida, mas de ônibus, e quando soube que outros três iam a pé, sentiu vontade de ir também. Os três saíram e Alexsandro ficou pensando se ia a pé ou de ônibus, mas tomou a decisão. “Encontrei-os em Cornélio Procópio e seguimos a viagem. Decidi ir andando para agradecer a Deus e a intercessão de Nossa Senhora por vários milagres alcançados”.
César conta que apareceram dificuldades, e então ele pediu para que Nossa Senhora o ajudasse a resolver.“Acreditei tudo se resolveria ai, o que aumentou a vontade de peregrinar. Todos já tinham uma vontade de ir a pé para Aparecida, e quando eu disse que ia todos se animaram mais”.
Lourival prometeu à Nossa Senhora que se fosse curado iria a pé para Aparecida. Ele conta uma história emocionante: “Os missionários me acolheram uma vez, mas por estar cheio de feridas resolvi ir embora, pois preferia ficar sozinho. Voltei para minha cidade e a assistente social exigiu que eu me curasse para poder entrar na casa dos meus parentes. Fiz 14 exames que não constataram nada, então entendi que Nossa Senhora me curou, e fui agradecê-la por ter curado minhas feridas e tirado meus vícios de álcool e cigarro. Quando saímos para ir a Aparecida eu fumava, mas não levei cigarro confiante de que seria curado do vício, e fui realmente curado, não sinto vontade mais de fumar. Cada dia longe do cigarro foi uma vitória. Nossa Senhora intercedeu e Deus tirou tudo de uma vez”. Ele conta que não gostava nem de conversar e ter contato com pessoas, e agora mudou. Também não rezava para comer. “Hoje não pego um copo d’água sem agradecer a Deus. Passei a acreditar mais nEle”.

Um grande aprendizado
Alexsandro define a peregrinação como uma experiência única. Ele diz que aprendeu a dar valor às pequenas coisas. “Sair confiando na providência de Deus não é fácil. É uma experiência que nunca imaginei que teria”.
Edson Leonardo garante que aprendeu muito com as diferenças dos irmãos. Ele diz que aprendeu a amar mais e entender as limitações de cada um. “Às vezes um estava com aquela pressa, aquela animação para andar rápido, mas tínhamos que pensar que em um dia um estava bem, outro não, e vice-versa. Nessas situações nós aprendemos a praticar mais a caridade um com o outro, porque juntos tivemos mais forças para chegar, e se ficássemos pensando muito na distância que ainda restava, iríamos desanimar”.
O aprendizado de César para a vida é respeitar os passos uns dos outros. “Muitas vezes a gente olha pra frente e coloca nossas vontades, e nessa peregrinação eu aprendi que é muito importante respeitarmos um ao outro, respeitar os limites, o cansaço, e fomos aprendendo a lidar com a diversidade”. Ele lembra que para evitar a solidão, foram em 4, para um ajudar o outro e viver essa comunhão, conseguindo deixar as dificuldades de lado.

Contando os dias
Ao longo do percurso, muitas dificuldades apareceram. Lourival conta que se sentiu muito triste ao passar perto da cidade da família que não vê há mais de 7 anos e não ter parado para visita-los. Ele entendeu o motivo de ter desviado o caminho. “Meu caminho era outro e se eu fosse visita-los não voltaria mais a caminhar. Depois que passamos por lá a viagem acelerou para eu não olhar mais para trás, porque eu pensava na minha família mas tinha comigo 3 irmãos de consideração, então pra que voltar lá? Um dia Deus vai preparar meu momento para que eu chegue lá, porque não consigo me comunicar com eles, então resolvi esperar em Deus”.
Ele se emociona lembrando que pedia a Deus um lugar para morar e uma família, pois há tempos não sabe o que é conviver com as pessoas que ama. Agora que foi acolhido na Casa de Oração junto com os missionários e com outras pessoas que também viviam em situação de rua, Lourival se sente muito feliz. “Deus me deu uma nova família. Aqui estou em casa, estou com Deus, tenho uma família e um trabalho que amo cuidando da horta”.
César, que é pai de 5 filhos, diz que de todas as dificuldades, a maior era ficar longe da família. “Cada dia longe deles eu tentava pensar que estava mais perto o dia de reencontrá-los”. Seus pés ficaram muito machucados, o que dificultou bastante a peregrinação. Ele, com os pés inchados e inflamados, diz que em alguns momentos, ao pisar no chão sentia calafrios, mas tomava um remédio e tomava coragem para voltar a caminhar.

A preparação foi a oração
Muita gente não acreditou que foram realmente andando de Umuarama, no Paraná, até Aparecida do Norte. Em certos momentos, nem eles acreditavam. “Foi Deus que sustentou a gente. Se fosse com nossas pernas nós não teríamos chegado lá”, diz Lourival.
Perguntavam como eles se prepararam, se pegavam carona ou tinha um carro de apoio os acompanhando. Eles dizem sorrindo “nossa preparação foi: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.
Os quatro peregrinos não se sentem engrandecidos pelo que fizeram, pois sentem que tudo foi pela graça de Deus. César define a caminhada “O que vivemos foi a Paixão de Cristo. Foi o mistério do Calvário. Nós passamos pela via sacra da saída de Umuarama até a chegada. Não foi um mérito nosso. Deus sabe disso.”  

Eles agradecem a todos que os acolheram.
Na Diocese de Umuarama, essa é a primeira vez em que peregrinos percorrem essa distância a pé em oração.

Diocese de Umuarama

LITURGIA DIÁRIA

Últimos Posts