“Por que será que todo mundo hoje quer falar de comunidade?”, essa foi uma das indagações colocadas pela professora doutora Raquel Paiva, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em sua exposição no seminário Comunicação Comunitária e Construção da Cidadania, na manhã desta terça-feira (29), durante o 8º Mutirão Brasileiro de Comunicação (Muticom), em Natal (RN).
A professora analisou que diante do atual cenário parece que as pessoas perderam o sentimento de obrigação. “A questão da comunidade é a tabua de salvação para a sociedade, a necessidade de pertencimento vínculo social é fundamental. O homem chegou a esse desenvolvimento tecnológico, mas o avanço do outro é mínimo”, apontou. Ainda de acordo com a professora a comunicação comunitária é uma resposta, um diálogo que não se tem na mídia. “Ainda que coloquem o nome de ‘comunidade’, não há uma troca, um silêncio, É um falatório o tempo todo”, afirmou.
Para o professor doutor Juciano de Sousa Lacerda (UFRJ), um dos debatedores do seminário, nos meios de comunicação a “comunidade” está mais vinculada com a questão da audiência da emissora do que a verdadeira preocupação com a comunidade. “Na mídia, parece que os problemas da comunidade se resolvem rapidamente”.
Com relação a igreja católica a professora Raquel apontou que ela (igreja) sempre soube trabalhar muito bem com a comunicação comunitária. “Exemplo disso são as rádios comunitárias ligadas a igreja católica e o projeto da Leitura Crítica da Comunicação LCC, junto com a União Cristã Brasileira de Comunicação Social (UCBC), da década de 70 e 80. Foi um projeto fundamental dentro da comunicação comunitária”. De acordo com a professora geralmente o ponto de partida da discussão sobre a comunicação comunitária é a mídia, que muitas vezes tem um discurso que não esta satisfatório para a comunidade. O material da LCC inicialmente trabalhou os abusos da mídia a estereotipagem entre outras abordagens. A professora ainda sugeriu uma reinterpretação desses materiais. “São até hoje utilizados por diversas pessoas. Precisamos fazer uma reinterpretação do material da LCC com os dados que se tem do tempo atual, para ser eficaz e dar os resultados que já deu”.
Já o padre Manoel Filho, da Arquidiocese de Salvador (BA), outro debatedor do seminário, disse que na igreja a comunicação deve ser “comunitária no processo, popular (sem ser popularesca) na forma e cidadã no conteúdo”. Padre Manoel demonstrou preocupação de como a ideia de sucesso pode atrapalhar a perspectiva de uma construção comunitária de comunicação. Para a professora Raquel as celebridades e os egos não podem se sobressair ao coletivo. “Se o catolicismo não consegue domar esse sentimento humano (homem lobo do homem), não há mais nada que possa domar”.
Professora Raquel também disse que na comunicação comunitária o processo horizontal de produção é forjado o tempo todo por todas as pessoas envolvidas e que as experiências que fracassaram foram de projetos comunitários em que as coisas vieram postas de cima para baixo como por exemplo as políticas públicas quando acham que algo é bom para a comunidade mas não se dão ao trabalho de ir ouvir o que as pessoas querem.
Finalizando sua fala, professora Raquel disse que é necessário na comunicação comunitária avaliar a produção (não o conteúdo) no sentido de resgatar o ponto de não seguir modelos estéticos. “Não precisamos ficar a reboque do que o mercado manda. A tecnologia trouxe uma riqueza de produção que não tínhamos, hoje qualquer pessoa pode produzir vídeos, textos colocar no Youtube, no Facebook. Vamos descobrir outras maneiras de fazer noticias, de dar a informação”, finalizou.
Natal (RN) – Jorge Teles
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